Caso Bernardo – O que aconteceu no Primeiro dia de Julgamento em Três Passos

No primeiro dia do julgamento do caso Bernardo, no Fórum de Três Passos, no Noroeste do Rio Grande do Sul, duas testemunhas de acusação foram ouvidas: as delegadas Caroline Bamberg Machado e Cristiane de Moura Baucks. Elas relataram como ocorreu a investigação que indiciou os quatro réus pela morte: pai e a madrasta do menino, Leandro Boldrini e Graciele Ugulini, e os irmãos Edelvânia e Evandro Wirganovicz. Bernardo tinha 11 anos na época.

Os réus chegaram em veículos da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) por volta das 9h, algemados e com coletes à prova de balas, e foram conduzidos por policiais até o interior do fórum. Somente Evandro estava sem a proteção no corpo.

Um pouco depois das 9h30, foi realizado o sorteio dos jurados no fórum, de forma reservada. Dos 25 nomes reunidos, saíram sete – cinco homens e duas mulheres. Essas pessoas passaram a fazer parte do Conselho de Sentença. No fim do julgamento, elas participam do resultado que será proferido pela juíza Sucilene Engler.

Um intervalo foi realizado no fim da manhã, com retorno previsto para as 12h30. O júri foi iniciado pouco antes das 13h, com a primeira testemunha de acusação, a delegada Caroline, que presidiu o inquérito na época do crime.

O promotor Bruno Bonamente fez perguntas a ela. A delegada disse que a demora no registro do desaparecimento do menino fez parte de estratégia dos réus para montar um álibi.

A acusação mostrou um áudio gravado de uma entrevista que Leandro deu a uma rádio para avisar que a criança estava desaparecida, dias após o fato. Na ocasião, o pai não quis deixar um contato pessoal para informações. Ele pediu para que a população telefonasse diretamente para a polícia através do 190.

“Se for olhar, de 100 casos, 99,9% dão seu telefone, pai e mãe, principalmente, e ele não dá o telefone dele para as pessoas ligarem”, salienta a delegada.

“Todos se apavoraram com a frieza dele [Leandro]”, acrescentou Caroline, citando comentários de pessoas que conviviam com Leandro e falaram à polícia.

Ela também lembrou que Bernardo sofria com abandono e desafeto do pai.

“Ele era torturado psicologicamente”, disse.

A delegada listou algumas provas levantadas, dentro de questões realizadas pela promotora Inês Miron Jappe. Uma delas era sobre o medicamento apontado como causa da morte do menino, que teria sumido do consultório do Leandro. “Comprovamos a falta do midazolam em ampolas de 5mg, várias”, afirma a delegada.

Caroline relatou que dentro de uma normalidade, uma dose segura [de midazolam] seria de até 10mg. “Conversamos com vários médicos, que disseram que uma dose muito alta poderia causar parada cardiorrespiratória.” A perícia apontou a presença do remédio nos rins, fígado e estômago de Bernardo.

As duas rés foram reconhecidas comprando ferramentas, soda cáustica e midazolam, conforme a delegada. Nas interceptações [telefônicas], ficou provado que elas estavam combinando o álibi.

Os promotores Ederson Luciano Maia Vieira e Silvia Inês Miron Jappe também fizeram perguntas. Depois disso, a delegada respondeu questionamentos da defesa de Leandro, representada pelos advogados Rodrigo Grecellé Vares e Ezequiel Vetoretti.

Sobre um dos questionamentos, ela relatou que Leandro dizia que a família era perfeita e ele tentava passar a informação de pai preocupado.

“O que adiantava ele ir na escola se sabia que o Bernardo estava morto? Ele dizia que a responsabilidade [de encontrar o menino] era da polícia”, acrescenta a delegada.

Por volta das 15h50, um intervalo de 15 minutos foi feito. Depois disso, o julgamento seguiu com a defesa de Graciele fazendo perguntas para a delegada. O advogado Vanderlei Pompeo de Mattos citou o exemplo de um outro caso, que ficou sob sigilo, diferente do que aconteceu com o caso Bernardo.

“A imprensa estava em cima, vazaram muitas informações, esse clamor publico, Não fui eu que procurei a imprensa. Até para acalmar os ânimos [foram realizadas coletivas de imprensa]. Cada caso tem seu andamento. Eu não conseguia trabalhar mais, era só ligação. Não fui eu que decidi, foi a chefia”, afirmou.

A defesa de Edelvânia também fez perguntas para Caroline. O advogado Jean Severo questionou porque não havia um defensor com a cliente quando ela prestou depoimento. A delegada respondeu que a ré não quis.

Em um determinado momento, a juíza Sucilene Engler pediu que Jean se acalmasse ao fazer perguntas para a delegada Caroline. “O senhor trate com urbanidade a testemunha. Nessa sessão, o senhor não vai desconstruir a delegada”, afirmou a juíza.

Defesa de Evandro, o advogado Luiz Geraldo Gomes dos Santos questionou se podem ter ocorrido falhas no caso. A delegada respondeu dizendo que a “a investigação foi muito bem feita. E os réus estão presos há cinco anos”.

Por volta das 18h, a segunda testemunha, delegada Cristiane Moura, começou a prestar depoimento. Ela relatou que o pai e madrasta informaram que tinham um bom convívio familiar. Mas testemunhas contaram que Graciele tinha sérios problemas com Bernardo, e que ela dava a entender que tinha um sentimento de ódio pelo menino.

Conforme a delegada, câmeras de um posto de gasolina mostram Bernardo saindo do carro junto com Graciele e Edelvânia no dia 4 de abril, quando ele foi morto. As duas retornam ao carro sem a criança.

A delegada ainda contou como o corpo de Bernardo foi encontrado. Ela disse que conversou com Edelvânia e tentou sensibilizá-la, dizendo que, se colaborasse, a criança pelo menos poderia ter um enterro decente. Ela, então, mostrou onde o menino foi enterrado.

“Foram chamados os bombeiros e localizamos o corpo. Me desloquei para Três Passos para formalizar os dados”, acrescenta a delegada.

Cristiane disse que foi oportunizado o contato com advogado, e que em nenhum momento a acusada foi coagida. “Filmamos o depoimento justamente para não ter nenhuma dúvida sobre isso”, afirmou.

Edelvânia teria relatado, conforme a delegada, que Graciele havia procurado ela, dizendo que o menino era um “estorvo”, era “violento”, e ela precisava “dar um fim” nele, e oferecido dinheiro em troca da ajuda. Ela concordou.

Os promotores realizaram perguntas. A delegada contou que Bernardo era negligenciado.

“Ele ia em médicos sozinho, tomava remédios controlados sozinho, menino extremamente carente que pedia abraços, que queria carinho”, descreveu.

A defesa de Leandro realizou perguntas para a delegada. O advogado Rodrigo questionou Cristiane sobre quais foram os motivos que levaram o médico, conhecido na região, a cometer o crime.

Cristiane mencionou um relato de Graciele. “Ela referia que o relacionamento do casal estaria com muitos problemas, e ele teria que escolher entre ela e o Bernardo”, contou.

Outras testemunhas relataram que foi pela questão financeira, uma herança que Bernardo teria direito quando completasse 18 anos.

A defesa ainda questionou qual a prova de que Leandro matou o próprio filho.

“Ele teve atitudes que nos fizeram crer, e indicaram esta participação. Ele foi procurar o menino Bernardo onde Graciele teria dito que ele estava. Os pais desse colega se surpreenderam porque ele nunca tinha feito isso. Ele estava agindo de uma forma diferente para montar um álibi. Ele disse para algumas testemunhas que não adiantava ligar porque ele tinha deixado o telefone em casa, as pessoas disseram que ele estava sempre com esse telefone.

Ele não demonstrava nenhuma preocupação com o filho. Tudo leva que ele tinha o conhecimento do que estava ocorrendo”, narrou a delegada.

Ao responder os questionamento do advogado de Graciele, Vanderlei Pompeo de Mattos, a delegada disse que “Bernardo não falava mal [do pai e da madrasta]. Não contava o que acontecia dentro de casa, mostrava não gostar de falar sobre isso”.

Um dos advogados de Edelvânia, Jean Severo questionou, como fez com a delegada Caroline, por que a cliente não estava acompanhada de um advogado quando prestou depoimento.

Cristiane respondeu que foi oferecida a possibilidade, mas ela não quis. “Não houve nenhum tipo de ameaça, de constrangimento, de tortura para isso”, acrescenta.

O advogado se exaltou e disse que o inquérito era “capenga, injusto, que destruiu a vida de pessoas”. A delegada respondeu que “as vidas estão acabadas pela ação de cada um e não pelo trabalho da polícia”.

O advogado Luiz Geraldo Gomes dos Santos, que representa a defesa de Evandro, afirmou que não existe comprovação de que o cliente está envolvido no crime.

“A polícia procura a verdade e a justiça. Poderiam ter ocorrido outras diligências, mas, naquelas condições, foram o que conseguimos colocar para comprovar a autoria e os envolvidos”, encerrou a delegada Cristiane.

Logo em seguida, a sessão foi suspensa. A juíza Sucilene Engler anunciou a retomada às 9h desta terça-feira (12).

Fonte: RBS TV

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